De perto ninguém é mesmo normal - semiótica, as minhas manias e os símbolos
Hoje fui levar a minha mãe no servidor público. São as famosas dores que vão nos prostrando e que vão um dia sumir e que por fim fincam raízes. Eu também estou precisando ir ao médico. Mas protelo, protelo. Lembro-me daquela máxima que diz: ´estou morrendo mais rapidamente com a ajuda de meus médicos.´Mas não é isso: é o temor, talvez, de se descobrir fadado a alguma doença mais séria. E nessa minha idade, tudo, tudo é possível. Vivemos no fio da navalha. Mas temos que aprender a encarar. Pelo menos é isso que todos os manuais nos ensinam. Desde Marco Aurélio, Schopenhauer, Bobbio e Sêneca. Mas eu confesso que tenho sido reticente quanto a isso. E quanto aos médicos, acho bem melhor louvá-los do que descartá-los. De uns anos para cá, venho fazendo uso de agendas -- nas quais faço as minhas anotações para pagamentos de parcelas, bem como anotações de estudos, efemérides de parentes e amigos - o que aliás vem diminuindo - e pequenos problemas, sintomas, comigo ou com algum parente. E venho percebendo que janeiro é um mês meio desencadeador de sintomas depressivos. Eu mesmo não tenho parada. Vejo um dvd, vou para a internet, tento ler um pouco, andar -- mas sinto-me um pouco down. Não sei se é só comigo. Hoje mesmo no servidor vi novamente inúmeras pessoas com problemas. Vi uma negra belíssima com transtornos psiquiátricos - (consoante o seu marido -- um cara inteligentíssimo, autodidata da história das religiões e história geral, um rapaz que você vendo de primeira você não acredita)... O ser humano é muito confuso mesmo. Eu mesmo que me julgo um cara supernormal, apesar de arrogar aqui nesse blog, às vezes, perco o controle sobre a minha mente. Perder controle é não dominar símbolos, associações -- que vão gerando certos medos, descontroles, paúras... Mas não é esse medo do valentão aí. Nada contra ninguém... Não!... Ficamos estudando muito filosofia, artes, etc --- mas nos esquecemos -- pelo que me parece -- de estudar a mente humana. Eu com a ajuda da Raquel estou tentando apreciar o budismo - mais precisamente o budismo que a Raquel vem seguindo. Mas estou no começo. E estou ainda um pouco perdido, num sincretismo que me foge, misturando budismo com cristianismo Sempre fui um cara muito confuso com as religiões. Nasci numa família de católicos não praticantes. Já cheguei, na minha juventude, a negar o catolicismo -- mas sempre respeitei Jesus Cristo. E não me perguntem por quê... Depois que me separei então o respeito aguçou-se e foi uma mistura de niilismo com crença que me deixava desnorteado mesmo. Namorei também uma carola. E em casa há inúmeras imagens de Jesus. Inclusive no meu quarto. Mas não rezo o pai-nosso. Só faço o sinal da cruz. Todavia tenho uma relação mórbida com os símbolos cristãos, que invariavelmente me ocorrem mais nos pesadelos. Por exemplo: não posso ver ataúdes (veja que até deneguei o nome mais popular), flores, coroas, cruz, cores roxas e amarelas. Parece-me que tudo isso levar-me-á a maus presságios. Faço associações simbólicas que vão me deixando exasperado, confuso e perdido. Tento me livrar e a coisa enlouquece. Sei que tudo isso poderá ser sintomas patológicos de alguma enfermidade. Já li alguma coisa a respeito. Mas o problema da mente é que não é igual a uma doença do corpo. Por exemplo: levo uma vida supernormal. Sou meio tímido para quem não me conhece. Mas sou muito alegre e engraçado. Pra você ter uma idéia, danço, quando estou com a Raquel, aqueles forrós, samba. Sou muito brincalhão mesmo. Mas são bem distintas, creio, as enfermidades entre psiché e soma. A dor da alma é uma dor mais metaforizada. Que apavora! Sabe aquele soneto do Augusto dos Anjos cristalizado? É uma dor menos dolorida no sentido real da dor. Por isso recusamos em aceitar que estamos enfermos naquele sentido em que estamos acostumados. Houve uma época em que cheguei a ler um pouco de Foucault e Guatari -- muito pouco mesmo. E até que concordava com eles a respeito da loucura -- que em grego é mania. Mas hoje vejo que não é somente o sistema político e a sociedade que forjam aqueles que são chamados de ´loucos´por muito - que acho um exagero. Mas o que quero dizer é que é um problema de uma disfunção qualquer. Ou até metafísico-ontológico. É evidente que todos esses símbolos foram se construindo ao longo dos tempos. Mas por exemplo: associo caixão com morte. Se estou vendo Milton Neves, mudo de canal, quando começa no meu entender com aquela hybris toda - enterrando times, colegas. Creio que sistemas políticos quase nada teriam a ver com isso. Nem sei também se Foucault e Guatari pensavam assim. Não sei o que me levou ao medo exacerbado da morte, através desses símbolos. E é engraçado como o tema morte massificou-se. É só dar uma piscadela nos jornais, net, tv, ou outros suportes. Mas alguns símbolos, especialmente para mim, representam e de maneira nefasta essa morbidez lenta da minha alma que acabo de relatar. Com efeito, o homem doente da alma é doente aqui, nos EUA, Portugal, Espanha, Cuba ou Nicarágua. É um nosotopos muito além de onde poderíamos supostamente imaginar... Por isso que sempre digo: por mais que eu viaje, nunca saio de mim...
# É evidente que há uma conotação histórico-diacrônica. O que representa, na verdade, uma cruz para quem nunca viu uma cruz numa sociedade por nós desconhecida? Isso é apenas um relato das entranhas. E através desse relato, expondo e expondo-me, talvez eu consiga, por fim, me achar.
Friday, January 19, 2007
Literatura, Textos, Fragmentos, outros ainda não catalogados.
About Me
- Name: wilson luques costa
Wilson Luques Costa é brasileiro. Nascido na cidade de São Paulo em 15 de fevereiro de 1960, é diplomado em jornalismo e pós-graduado em psicologia. Publicou dois livros na literatura e freqüentou cursos de mestrado em educação e filosofia. De 2003 a 2005, cursou módulos livres e instrumentais de grego e latim. Em 2003,escreveu um ensaio filosófico, registrado na Biblioteca Nacional, denominado de O Paradoxo do Zero. Atualmente é professor de filosofia do ensino médio. Vive e reside em São Paulo.
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