Monday, January 22, 2007

Livros são recortes. Registros mais ou menos importantes ou não de um autor- consagrados por ele mesmo, pela sua editora, ou pelos seus amigos ou nem consagrados por ninguém. Mas não deixam de ser livros, porque estão numa essência que lhes denotam as características-essências (ousías) de um livro. Livro até agora ( porque também está mudando) é mormente constituído de papéis, páginas e textos. Muitos, depois da era Joyceana, nem isso. Houve também os palimpsestos, pergaminhos e outros. Um livro pode ter somente palavras sem nenhum significado (?), pode também ter um arrazoado de intenções ou poemas - pode ser uma coletânea de rascunhos que se adensam em forma de livros. Um livro de Arnaldo Antunes pode ser diferente de um livro de Ferreira Gullar ou Murilo Mendes, como um livro de Murilo Mendes mais diferente de um outro, e esse outro diferente de outro e outro, embora livros. Livro é às vezes menos literatura e mais artes plásticas. Os textos podem ser - e por que não - suportes, continentes, e não conteúdos. É preciso notar também que como o conceito invadiu as artes plásticas e a filosofia a literatura -- a literatura também sofreu esse tipo de entropia. Os textos sendo suportes de intenções estéticas. O que ocorre no entanto é que vemos e vimos o livro como auto-ajuda. É evidente também que toda proposta estética tem lá o seu télos. Mas isso não quer dizer que nos textos você poderá sempre e sempre encontrar o seu fármacon. Eu, por exemplo, tenho livros em casa como se fossem verdadeiros quadros. Deixo-os num lugar privilegiado em minha estante. Na verdade, não estou cultuando o que ali está escrito. Cultuo menos o autor epigrafado. Cultuo, outrossim, o ilustrador incógnito. O problema, a meu ver, é vermos, apesar de abominarmos essa conceituação, os livros como auto ajuda. Como algo panacéico. Algo que transmutará as nossas vidas nas primeiras dez linhas. Um livro pode ter infindas leituras. Infindas propostas. Nem sempre atrás de um escritor está um escritor verdadeiro. Um livro pode ser uma obra de arte. Pode ser um novo tipo de instalação. E esse museu pode ser sim a sua própria casa. Sempre me recordo de um frase minha, quando me perguntavam se um livro poderia mudar o mundo -- e eu sempre respondia: ´Claro que pode, é só você colocar uma bomba de nitroglicerina dentro.` Um livro antes de tentar mudar o leitor deveria se perguntar para que ele mesmo veio... Às vezes, veio mesmo para nada... É só você ler a maioria dos livros nas estantes de sua biblioteca ou dos seus alfarrábios...E tenho dito...

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